Sementeira 12 – Manifesto
A Sementeira, como o próprio nome sugere, propõe-se a ser um solo fértil à criação de diálogos e relações entre a comunidade, procurando fomentar a participação colectiva e a construção de uma sociedade livre e justa, pela qual lutamos e sempre lutaremos.
Fazer arte e poder partilhá-la é uma forma de garantir uma sociedade acordada, capaz de pedir da vida tanto quanto consegue sonhar. Uma sociedade que não se rebaixa e submete ao que muitas das vezes nos querem tentar convencer; de que é assim porque é assim que é, e que mais vale aceitar que não podia ser melhor.
Em 2024 celebra-se o quinquagésimo aniversário do 25 de Abril. Há 50 anos atrás, Portugal vivia mergulhado numa noite escura até que se deu o 25 de Abril e foi derrubado o fascismo, a censura e a opressão imposta por um governo totalista e autoritário ao seu povo. Mas o legado dos valores de Abril é um projecto longo, transformativo. É um sonho que cabe a cada um de nós cumprir. O 25 de Abril não é uma data simbólica, que se esvazia em si própria e é relembrada, de ano a ano, por “obrigação”, e cantada baixinho, composta por vozes cansadas e olhos sem brilho. “Abril é um sonho lindo, quase acabado”. Abril é um mês quase; quase maduro, quase cumprido, quase por cumprir. Esse “quase” somos nós que o preenchemos, e nós aqui estamos, nunca por obrigação mas sim por amor, com alegria e vontade, inclusivxs, atentxs, de braços abertos. Por mais que nos queiram dizer que não, que “não cabemos cá todos”, nós somos o verde e o vermelho dos cravos e das bandeiras nas espingardas nos soldados que libertaram o seu povo, e nós, povo unido, sabemos o quão precioso, magnífico e espaçoso é o nosso país de Abril.
Em muitas coisas Abril é um mês quase, mas há também um Abril começado. Há um Abril feminista. Há um Abril LGBTQI+. Há um Abril do estado social. Há um Abril da educação pública e da saúde universal. Há um Abril que acolhe. Que semeia, e que colhe. Ninguém apaga a história, por mais que hoje em dia tanto a ameace: por muito que tenha ficado por fazer, nós ainda somos o mesmo povo. Em cada um de nós vive a revolução de Abril, e a cada um de nós cabe a tarefa de a continuar a fazer, dia após dia, noite após noite. Muitos querem fazer precisamente o oposto, destruí-lo. Quem vive este mesmo sonho lindo e quase acabado não pode ignorá-lo nem deixá-lo passar: agora não é tarde, agora não é cedo, está na hora de fazer a luta toda!
“Lembra-me um sonho lindo, quase acabado…”
Fausto, “Lembra-me um Sonho Lindo” (do álbum “Por Este Rio Acima”)